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Cimeira do G20 em Londres: a última oportunidade
antes da deslocação geopolítica mundial
Carta aberta aos dirigentes do G20
por Franck Biancheri
Senhores e Senhoras:
Resta-vos menos de um semestre para evitar que o
planeta afunde numa crise de que será preciso mais
de uma década para sair, com um terrível
cortejo de infelicidades e de sofrimentos. Esta
carta aberta do LEAP/E2020, que desde Fevereiro de 2006 havia anunciado a iminência
de uma "crise
sistémica global", pretende tentar indicar-vos resumidamente porque assim é e como evitá-lo.
Com efeito, se os senhores começaram a suspeitar da amplitude da crise há menos de um ano, foi em
Fevereiro de 2006, na 2ª edição do seu "Global Europe Anticipation Bullletin" (GEAB), que o LEAP/E2020 anunciou a entrada do mundo na
"fase de desencadeamento" de uma crise de amplitude histórica. E desde esta data, o LEAP/E2020 continuou, a cada mês, a antecipar de uma maneira muito fiável as evoluções da crise na qual
o mundo inteiro se debate doravante.
O que nos levou a vos escrever
esta carta aberta com a esperança de que ela
esclarecerá as vossas escolhas
daqui a alguns dias.
Esta crise agrava-se perigosamente.
Recentemente, por ocasião
da 32ª edição do seu boletim, o LEAP/E2020 lançou um alerta muito importante que
vos concerne directamente, vós
os dirigentes do G20: se, reunidos em Londres a 2
de Abril próximo, não forem
capazes de adaptar decisões
audaciosas e inovadoras
concentrando-se no essencial, e iniciar a sua execução daqui até o Verão de 2009, então no fim deste ano a crise entrará na fase de "deslocação
geopolítica generalizada" que afectará tanto o sistema internacional
como a própria estrutura
das grandes entidades políticos como os Estados Unidos, a Rússia,
a China ou a UE. E os senhores
então já não controlarão mais nada para a infelicidade
dos seis mil milhões de habitantes do nosso planeta.
Vossa opção: uma crise de 3 a 5 anos ou uma crise
de mais de uma década?
Infelizmente, como nada vos preparou para enfrentar
uma crise de uma tal amplitude histórica,
até ao presente os senhores
ocuparam-se apenas dos sintomas
ou das causas secundárias.
Os senhores pensaram que bastava por combustível ou óleo no motor mundial, sem perceberem que estava muito simplesmente avariado e sem esperança de reparação. É um novo motor que é preciso construir. E o tempo pressiona pois cada mês que passa deteriora um pouco mais
o conjunto do sistema internacional.
Como em toda a grande crise,
é preciso ir ao essencial.
Como em toda crise de dimensão histórica, a única opção
está entre empreender rapidamente
mudanças de radicais e encurtar consideravelmente a duração da crise e suas consequências trágicas ou ao contrário
recusar as mudanças radicais
tentando salvaguardar o existente, para não
conseguir senão prolongar duravelmente
a crise e aumentar todas as suas
consequências negativas. Em
Londres, a 2 de Abril próximo, os senhores terão assim a opção entre resolver a crise em 3 a
5 anos de uma maneira
organizada ou, ao contrário, arrastar o planeta
para uma década terrível.
Limitar-nos-emos aqui a
destacar três conselhos
que consideramos estratégicos, ou seja, se não forem postos em acção daqui
até ao Verão de 2008 a deslocação
geopolítica mundial tornar-se-á inevitável a partir
do fim deste ano.
OS TRÊS CONSELHOS DO LEAP/E2020
1- A chave da crise é
a criação de uma nova
divisa internacional de referência!
O primeiro conselho
resume-se a uma ideia muito simples: a chave da crise actual encontra-se na reforma do sistema monetário
internacional herdado do após
1945 a
fim de criar uma nova
divisa internacional de referência. O dólar
americano e a economia dos Estados Unidos já não estão
em condições de serem os pilares da ordem
económica, financeira e monetária
mundial. Enquanto este problema estratégico não for abordado directamente,
e depois tratado, a crise
aprofundar-se-á pois esta
está no cerne das crises dos produtos
financeiros derivados, dos bancos, dos preços da energia, ... e das suas consequências em termos de desemprego maciço e de baixas dos níveis de vida. É portanto vital que esta questão
seja o objecto principal
da Cimeira do G20 de Londres e que os primeiros elementos de solução sejam ali lançados.
A solução para estes
problemas é igualmente bem conhecida:
trata-se de criar uma divisa de referência
internacional (que se poderia chamar o
"Global") fundada sobre um cabaz de moedas correspondente às principais economias do
planeta, a saber, o US Dólar, o Euro, o Yen, o Yuan, o Khaleel
(moeda comum dos estados
petrolífero do Golfo será lançada a 1 de Janeiro de
2010), o Rublo, o Real, ... e fazer gerir esta divisa por um
"Instituto Monetário Mundial", cujo Conselho de Administração reflicta os pesos
respectivos das moedas que compõem
o "Global". Os senhores devem pedir ao FMI e aos bancos centrais envolvidos para preparar um
plano nesse sentido para Junho
de 2009 com o objectivo
de pô-lo em acção a 1 de Janeiro de 2010. É o vosso
único meio de retomar a iniciativa durante o tempo em que se desenrola esta crise. E é o único meio de
concretizar a implementação de uma
globalização partilhada, partilhando a moeda que está no
cerne de toda a actividade económica e financeira.
Segundo o LEAP/E2020, se uma tal alternativa ao sistema actual em pleno
colapso não tiver começado a ser preparada daqui
até ao Verão de 2009, demonstrando que existe um outro caminho além do "cada um por
si", o sistema monetário internacional actual não passará do Verão. E se certos Estados do
G20 pensam que é preferível
manter mais tempo os privilégios que lhes
proporciona o status quo, eles deveriam meditar no
facto de que hoje ainda podem influenciar de maneira
decisiva a forma que tomará este novo sistema monetário
mundial. Uma vez iniciada a fase de deslocação geopolítica, perderão
ao contrário toda aptidão para fazê-lo.
2- Controlar o conjunto dos bancos o mais rapidamente possível!
O segundo conselho já foi amplamente evocado nas discussões anteriores à vossa reunião. Deveria pois ser fácil adoptá-lo. Trata-se de instalar daqui
até ao fim de 2009 um sistema de controle dos bancos à escala mundial que
suprima todo "buraco negro". Várias opções já vos foram propostas pelos peritos. Tomem
a decisão desde já. Nacionalizem o mais rapidamente possível quando preciso! Este é em todos os casos o único meio
de prevenir um novo endividamento
maciço dos estabelecimentos
financeiros como o que contribuiu
para a crise actual, e de mostrar às opiniões públicos que os senhores têm credibilidade face aos banqueiros.
3- Façam avaliar rapidamente pelo FMI os sistemas financeiros
estado-unidense, britânico
e suíço!
O terceiro conselho refere-se novamente a uma questão muito
sensível politicamente
que no entanto é incontornável.
É indispensável que o FMI remeta ao G20, o mais tardar em Julho de 2009, uma avaliação independente dos três sistemas financeiros nacionais no núcleo
da crise financeira: o
dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Suíça. Nenhuma solução durável poderá com efeito ser posta
eficazmente em acção enquanto ninguém tem a menor ideia das devastações causadas pela crise
a estes três pilares do
sistema financeiro mundial. Já
não é tempo de "usar luvas"
com países que estão no
cerne do caos financeiro actual.
Escrevam um
comunicado simples e breve!
Para terminar, permitimo-nos apenas lembrar que doravante os senhores têm de restaurar a confiança junto a 6 mil milhões
de pessoas e junto a dezenas
de milhões de instituições
públicas e privadas. Assim, não
esqueçam de redigir um comunicado curto, que não tenha mais de duas páginas, que não contenha mais de três ou quatro
ideias centrais e que seja legível para não peritos. Do contrário, os senhores não serão lidos fora
do círculo estreito dos especialistas e não poderão ressuscitar
a confiança da maioria
condenando assim a crise
a agravar-se. Se esta carta aberta vos ajudar a sentir que a História
vos julgará por aquilo
que tiverem conseguido fazer
ou não nesta Cimeira, então ela não
terá sido inútil. Saibam simplesmente que, segundo o LEAP/E2020, os vossos povos respectivos não esperarão mais de um ano para vos julgar. Uma coisa
entretanto é certa: desta
vez os senhores não poderão dizer que não foram prevenidos!
Franck Biancheri
Director de Estudos do
LEAP/E2020
Presidente do Newropeans
Terça-feira, 24 de Março de 2009
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